segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Quem tem medo de iniciante?

Este texto é em homenagem ao Ricardo Farias. Obrigada pelos treinos e ensinamentos. =)


Fui responsável pelos primeiros treinos de muita gente no parkour. Não falo só no Rio, mas em viagens volta e meia recebo o desafio de ser o apoio aos primeiros passos de alguém na atividade. Me lembro do primeiro treino que ministrei. Sempre ajudei nos treinos, mas estar a frente, sem os amigos, dá um frio na barriga de estar passando o certo ou não.

Muitas vezes começo sozinha, às vezes perdida de por onde começar, depois outros se chegam para ajudar em algum ponto. E sempre é gratificante quando sinto o carinho de alguém por mim tanto tempo depois daquele primeiro treino.

Vendo a evolução de alguns que ajudei, me senti para trás e me questionei se não deveria ser um pouco egoísta para melhorar minha movimentação, já que tenho medos e barreiras que ainda não derrubei em mim. Mas, ao estar em um treino e ver alguém que quer se aproximar, entender como é o parkour e não dar a mão, é difícil... e injusto!

Nos treinos com o Ricardo, houve uma dinâmica de uma pessoa treinar com os olhos vendados enquanto o seu par teria de guiá-lo. É um x-tudo de emoções nessa atividade. Você não sente tanto medo de altura, mas fica com medo dos tropeços, dos cacos de vidro, das pedrinhas que teimam em marcar presença nos seus pés. Você percebe mais o chão, aguça mais o toque, percebe-se frágil, medroso, curioso, e, principalmente, dependente de outro.

No parkour, tantas vezes se grita que a liberdade vale, mas quanta falta faz alguém para dar uma dica, uma bronca.E, o outro? Ele também precisa de orientação! Ricardo compara o iniciante a uma xícara vazia. E esta xícara está disposta a receber tudo o que temos a oferecer. Nos primeiros treinos o iniciante se sente cego, curioso, com medo dos ralados, dos cacos e escorregões. E quem são os guias? Somos todos nós!

E, por que tanto medo e tanto abandono com os iniciantes em alguns treinos? Alguns assumem o medo de se sentir regredir ao passar o básico. Será que você se lembra como foi dar o seu primeiro pulo, ou fazer qualquer vault? Será que ainda consegue? Outros assumem que têm medo de terem trabalho e o mesmo indo para o lixo com o iniciante nunca mais aparecendo. Mas, como incentivar a prática se não tiver ninguém para orientar?

Como falar tanto em ser forte para ser útil, se não passamos adiante, se não somos exemplo? Como ser e durar, se não permitir o primeiro treino? Por que não se permitir ser iniciante de novo para que quem se chegar entender que independente do tamanho do pulo, cada um tem uma evolução, tem uma conquista que não é menor que a de outrem?

E a ilusão de que a gente só ensina... normalmente, aprendo muito mais com os iniciantes do que ensino. Porque tenho de voltar a ser uma iniciante para entender as dificuldades. Preciso fazer ao lado, e quantas vezes descubro que esqueci algo? Aprendo de novo e seguimos. E o sorriso depois por estar ao lado... não tem quem pague.

Ah! Para quem não sabe quem é o Ricardo, vai uma foto dele com a esposa Amanda. Guerreira que está na luta. =)





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