sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

O Parkour é ferramenta de empoderamento... desde que você não seja um ícone de destruição





Texto: Poliana Sousa    - @poliizz.
Proprietária e Diretora da Drop and Leap Escola de Parkour - Brasília. @dropandleap



A necessidade de se praticar exercícios não é de gênero. Todos deveríamos praticar alguma modalidade e se apaixonar em movimentar o corpo dentro das suas possibilidades. Porém, a grande maioria da população ainda não se encontrou ou ainda não escolheu ou se encaixou em um esporte.  Enfim, tenhamos calma, isso ainda é reversível.


              Aqui vamos falar das mulheres que já se encontraram. Daquelas que amam se movimentar, aprender habilidades, se superar, ficar mais fortes, resistentes e corajosas. Estamos falando daquelas que cuidam de si e estão sempre em busca da satisfação própria. Muitos acham que esse é um processo simples, só chegar, treinar, evoluir e pronto...tá tudo ali na mão. Não é tão simples assim. Todas as pessoas sofrem para achar motivação e inspiração interna para as rotinas diárias. Isso é associado com as obrigações de trabalho, faculdade, escola, família, dinheiro e, inclusive, os exercícios.  Apesar de estarem todos lutando para isso, as mulheres precisam carregar mais uma coisinha ainda: a cultura que, automatizadamente, nos condena até hoje, o machismo.

               Já estamos inseridas em quase todas as modalidades esportistas. Poucas ainda são as predominantemente femininas. Assim, permeando as difíceis habilidades e processos lentos dos movimentos complexos, precisamos aprender, infelizmente, mais uma habilidade: a de lidar e de se impor aos comentários impetuosos,  atitudes retrógradas e que muitas vezes  doem.

               Sobre a minha especialidade, o Parkour, tenho muito a dizer. Você conhece? É aquela modalidade ao qual as pessoas se movimentam pelas ruas. Sobem, descem, saltam, rolam, se penduram, correm criando percursos e desafios de movimentação. Para nós, mulheres praticantes, se tivéssemos somente as dificuldades físicas de alturas, distâncias, texturas, e agarres para nos preocupar seria lindo mas não. Conheça um pouco mais das dificuldades aos quais passamos:

SOBRE AS NOSSAS ROUPAS.
               Nessa modalidade, criou-se um estilo europeu friorento de agasalhos e moletons. Aqui, nós continuamos a usar, inclusive é preferência de muitas ainda, afinal permite muito movimento e protege de ralados e arranhões. Porém, quando abandonamos esse estilo e procuramos não sentir calor ou ficar mais à vontade usando shorts, leggins, tops ou shorts-saia ainda somos repudiadas. Infelizmente, isso não acontece somente no meio do parkour. Quando isso vai parar ?  reflita se você já pensou mal ou comentou desnecessariamente sobre as roupas das praticantes ?

              Entenda e assuma que roupas não definem personalidades e nem nível de treino, muito menos permitem avaliações e análises de quem ainda não evoluiu nessa nova geração de liberdade corporal.  

SOBRE OS NOSSOS CORPOS OU HABILIDADES
É triste ver e sentir quando somos comparadas com outros (as). Sofremos bastante quando acontece. Na filosofia do ensino do parkour aprendemos a aceitar diferenças e todos os bons praticantes levam isso para a vida...seja dentro da comunidade ou fora. Acredito que em quase todo o esporte é assim (ou deveria ser) no qual cada processo de evolução é aceito e respeitado. Sabemos que as diferenças corporais não acontecem somente pelo gênero mas pela história de vida, experiências motoras, oportunidades de estímulos, escolhas, entre outros. É normal e tá tudo bem. Mas parece que o homem fraco ou medroso jamais vai sofrer como uma mulher na igual situação.  Ainda há muitos homens que se negam a estar na presença feminina e quando estão desprezam ou são mal educados e displicentes com comentários. Não podemos ignorar.
 A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, sapatos e atividades ao ar livre

               Claro que há homens bem evoluídos mentalmente, educados, gentis e estupidamente respeitosos. Inclusive agradecemos de coração por vocês existirem e também pelo apoio e força que nos dão a cada treino, obstáculo ou bloqueio.

               Aprenda que sempre vão existir pessoas iniciantes, intermediárias e avançadas em toda as modalidades. E pode ser mulher, homem, novo, velho, machucados e várias outras dezenas de situações aos quais precisam ser respeitadas.


SOBRE ESTARMOS SÓ OU NÃO
               Vez ou outra percebemos o tratamento diferenciado de mulheres que estão “solteiras” ou desacompanhadas de uma figura masculina. É difícil entender de onde surge o pensamento  que uma mulher, aparentemente sozinha, sempre é vulnerável ou frágil ou ainda errada em seus comportamentos. 
Nós treinamos sozinhas, podemos viajar para encontros e eventos de parkour sozinhas à vontade. Quando começamos a treinar, a nossa relação com a rua se transforma. Aprendemos a ocupar nosso espaço, bem como ser cada vez mais autônoma. Não estou afirmando que não precisamos de ajuda ou de companhia, pelo contrário, é sempre bom treinar com quem pode contribuir. O caso é para alertar que, independente da situação ao qual a mulher se encontra, é necessário o máximo de respeito.

 
               
                 O parkour até pode ter começado pela iniciativa dos homens mas acredite, já somos muitas no Brasil e no mundo. A coisa mudou.
  
               Queremos que seja cada vez mais raro ou até inexistentes os relatos de praticantes que são vítimas dessas situações.

               Dessa forma, a partir de um compilado de incidentes, resumimos as frases mais idiotas e sugerimos algumas substituições. Inclusive, a partir desse texto, estamos torcendo para as suas atitudes com as mulheres e meninas serem melhores não só no esporte mais em qualquer ambiente.

AO PENSAR EM FALAR ISSO
PREFIRA USAR ISSO
Você treina igual homem
Já treina há quanto tempo ?
Tá mais musculosa que um homem
Músculos são o melhor investimento para a vida
Sua mão é de macho
Sua mão entrega o quanto você é guerreira e dedicada
Tem que ser mais fácil para você porque você é mulher.
Os processos desse movimento são assim. Quando evoluir mais ele avança para isso.
Mulher que faz assim.
Já viu as evoluções desse movimento? Bora tentar ?
Se ela faz, você que é homem, faz de boa
Ela manda bem, pede dica pra ela
Essa sua roupa provoca todos os homens do treino
-------  Neste caso, melhor você ficar calado. ------
Com essa roupa parece um menino
Tá style demais









JUNTAS SOMOS MAIS FORTES.


2 comentários:

  1. Didático e necessário. Ainda bem que dessa vez vejo mais abertura da galera para ouvir, ler e entender quão nocivo são alguns discursos.

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  2. Adorei o texto. Sou Prof. Ed. Física escolar e tenho me dedicado a tematizar o Parkour em minhas aulas. Importante discutir alguns temas com meus pequenos no sentido de incutir os bons valores inerentes a essa prática tão rica!
    Obrigado!

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