sábado, 18 de abril de 2015

TPM

Por Ana Antar


Há pouco tempo começamos timidamente em Salvador uma iniciativa, um treino só para o público feminino, o TPM (Treino Para Meninas).
Quando começamos ainda não tínhamos um nome, ele surgiu do amadurecimento da ideia. Queríamos algo simples, claro e bem-humorado também. Por que não? Que tal se utilizar de uma ideia frequentemente pejorativa e subverter o conceito?! E assim surgiu o TPM!!!

 Treinada Para Matar, Tocou Perguntou Morreu, Todos os Problemas Misturados...


Bem, comecemos com alguns dados sobre esse treino: Ele acontece aos domingos às 08:00h da manhã, horário em que, até então, não existe nenhum outro treino oficial. Logo, ele não disputa espaço com os treinos existentes, você pode ir aos TPM’s e ainda frequentar todos os treinos que já existem (e incentivamos isso fortemente). Faz-se importante perceber que esse espaço surgiu espontaneamente, não é um espaço de oposição, mas sim de soma.

- Ah, mas se é um espaço de soma por que meninos não podem frequentar?

Vamos lá, esse espaço está se construindo, é um espaço ainda frágil, com meninas que vem de experiências diversas, mas que pretende fomentar, não só o início da mulher na prática, mas, sobretudo, a sua permanência.  

Os treinos gerais que acontecem, são pensados para o todo (e tem de ser assim). Ao treinar com outras mulheres, percebi que temos algumas dificuldades distintas dos homens, corpos diferentes, heranças socioculturais diferentes, percepção de movimentos, enfim, coisas que acabam por interferir direta ou indiretamente na nossa prática.


Essa é uma foto do último Encontro Feminino. Reparem que existe um número de homens consideravelmente superior, mesmo com as meninas sendo o foco do evento.

Senta que lá vem a história...

Tive a oportunidade de ir ao 6° Encontro Feminino de Parkour em Vitória do Espirito Santo, e lá tivemos uma exeperiência única: Treinar com outras meninas! Tivemos também um incrível bate papo voltado para o cenário do Parkour Feminino Brasileiro. Bem, talvez você que está lendo isso não entenda a importância disso tudo, o que é natural. Quando comecei a treinar também não enxergava sequer a necessidade de um Encontro Feminino (já pedi desculpas por isso), simplesmente achava que o Parkour estava aí para todos e ponto.

Ok, isso é parte da verdade, mas existe também um outro lado da história... Quando cheguei ao Encontro conheci meninas que nunca tinham treinado com outras meninas, que tinham dúvidas que não necessariamente eram respondidas pelos seus colegas de treino, ou que tinham vergonha de perguntar determinadas coisas (sim, ainda existe vergonha no mundo e ela não é perdida do dia para noite) e isso acontece de ambos os lados. Vou dar o fatídico exemplo do planche: ninguém (nenhum dos meninos com os quais eu treino) nunca havia me dito que empinar a bunda na hora de empurrar a barra, ajudaria na subida e isso foi basilar para o entendimento do movimento.

- Ah, mas por que não me disseram isso?

Porque os homens não queriam que eu fizesse o planche? Porque eles são malvados? Não, simplesmente porque homens, às vezes, também tem vergonha (pasmem o.O!!!)

- Ah, Ana pra quê essa história toda?

Bem, essa história toda é para dizer que, da forma como a sociedade está estruturada, ainda precisamos criar espaços de troca, espaços de ensino e aprendizado em conjunto. E foi isso que fizemos ao criar o TPM. Criamos um espaço onde podemos treinar com qualquer roupa, um espaço onde cuidaremos especificamente das nossas dificuldades.


#PartiuTreino!

“Não tenho força para fazer uma flexão! ” Vamos fazer exercícios de ganho de força! – “Não consigo fazer um movimento x! ” Vamos entender a sua dificuldade e trabalhar nela até resolver, contudo, de forma conjunta e supervisionada.

Afinal, o treino geral é para todo mundo e não para resolver especificamente minhas dificuldades. Com isso, criamos um espaço onde treinamos, trocamos informações, falamos besteira... Exatamente como qualquer outro treino, mas um espaço aberto voltado para o público feminino.  

Nos Treinos focados para meninas entendemos que a curva de aprendizagem às vezes pode ser maior em determinados movimentos, assim como no ganho de força e isso requer no mínimo mais paciência, mais cuidado para que uma pessoa vá embora desse treino e volte no seguinte. Não consigo precisar o porquê de tantas pessoas abandonarem a prática logo no início, mas estamos tentando mudar isso. Obviamente que não existe uma causa isolada, mas um conjunto delas. Algumas pessoas simplesmente não gostam do Parkour depois que descobrem o que ele realmente é, por mais que a gente (praticantes) não entenda isso. Nós queremos um lugar onde não estamos indo por causa do namorado, queremos aquele espaço que podemos ir de legging, de short ou até de moletom num calor de 40°, e isso não vai ser levado em consideração.

- Ah Ana, esse espaço já existe!

Ok, esse espaço começou a existir, mas não existia aqui em Salvador quando eu comecei a treinar. Que bom que hoje a roupa não é mais um assunto a ser discutido. Todavia, isso era algo tão incutido em nós que pergunto às meninas que começaram há pelo menos três anos: Como era aparecer de legging num treino? Lembro de muitas meninas que foram recomendas a ir para os treinos de calça tipo moletom, por causa da recepção que uma calça justa causaria nos garotos. Às vezes, simplesmente reproduzimos comportamentos sem questionar; às vezes isso é tão natural que sequer conseguimos enxergar como isso é para o outro.  No primeiro TPM, em que Kekel (Cléria Nascimento - uma iniciante daqui de Salvador) participou, conversamos ao final sobre esses treinos e como algumas pessoas não entendiam a necessidade deles. Ela, muito lucidamente, nos falou: “Acontece que, às vezes, o discurso do opressor está tão enraizado que o oprimido o reproduz sem nem perceber”. Para alguns pode soar exagerado ou vitimista, mas, na verdade, é tudo muito simples, é só um espaço para mulheres. 

Esse texto foi escrito para dizer que, por enquanto, precisamos de espaços auto organizados por nós e para nós mulheres, para que, futuramente, eles não precisem existir, por mais paradoxal que isso possa parecer. Assim, por ora, temos o TPM, um treino criado por mulheres, gerido por mulheres, para mulheres, mas que não se exclui do resto do cenário, apenas cria uma nova possibilidade. O que queremos com isso? Queremos que mais mulheres se envolvam com o cenário, que mais mulheres comecem e continuem praticando. No fundo isso é apenas uma experiência que torcemos muito para que dê certo.


Try again, and again, and again...

Apesar de parecer estranho para alguns, na gringa já rolam treinos exclusivamente femininos há um tempo, com os mesmos objetivos que os nossos: inspirar cada vez mais mulheres a conhecerem a prática e tornar o primeiro contato o mais acolhedor possível.

Assim, esperamos que esse projeto dê frutos, para que possamos abrir cada vez mais espaços de discussões, para que esses hiatos culturais de gênero possam diminuir a ponto de não precisarmos mais falar sobre eles. É a minha atual utopia, o horizonte que eu sigo buscando.


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